Sobre um Tempo em que Fazer Arte Pode ser Crime

“Quem disse? Quem determinou que um coletivo de artistas não pode usar uma praça pública?”

Existe um clima instaurado no Brasil que proporciona o avanço de uma gente com aspiração ao ódio e a intolerância, de gente que criminaliza toda e qualquer ação provida de tesão e alegria, de gente que não aceita diferenças e muito menos a diversidade de expressões promovidas pela arte do teatro e a cultura. Trata-se de gente com preocupações únicas e privadas, portanto idiotas!

Cabe recorrer à lembrança de Mario Sergio Cortela sobre a etimologia da palavra “idiota”: o termo possivelmente tenha se originado da palavra grega “idiótes”, que em sua origem significaria “cidadão privado”, aquele que se dedica somente a assuntos particulares.

Daí a nossa ampla diferença de pensamento acerca do mundo; pois que os artistas do teatro necessitam da coletividade, criam para construir caminhos que se revelam sempre ligados ao essencialmente coletivo, necessitam sempre de gente, de estarem próximos das pessoas e das humanidades, carecem de espaços públicos, carecem de multidão e quando precisam da solidão se distraem sozinhos em seus cantos sem obstruir a alegria pública.

Já os idiotas – que só pensam em seu universo privado – não suportam a cena aberta, o espaço de convívio e a alegria das pessoas nas ruas e praças.

O idiota vai sempre tentar, em nome de si mesmo, destruir a alegria alheia, vai pelear para obstruir as iniciativas que proporcionam a reflexão sobre a vida e o mundo, pois o idiota não pode suportar aquilo que é coletivo ou o que é publico.

Recentemente, ali, na Praça Roosevelt, um grupo de teatro se apresentava ao público em espaço aberto. E como todos que ali convivem, seguiram o protocolo com a Subprefeitura da Sé e obtiveram a autorização para a referida apresentação. Tudo seguia bem, até que uma senhora, moradora de um dos prédios da praça, apresentando-se com um cartão e dizendo ser do Conselho da Praça, avisa que ali não podiam fazer aquilo…

Ora, como assim não podem fazer? Quem disse? Quem determinou que um coletivo de artistas não pode usar uma praça pública? Pois que, ao decorrer do espetáculo, o que se sucedeu foi sim um ato repressivo por parte da polícia, que certamente foi acionada pela referida moradora e representante da tal associação que se imputa proprietária da praça pública: a polícia passa, portanto, a observar o coletivo de teatro e, ao final da apresentação, o grupo é abordado e em seguida tem seu carro-cenário APREENDIDO pelos militares!

É fato que quando as forças bélicas e conservadoras amigadas com o fascismo se articulam, eles rapidamente encontram caminhos regimentais de travarem a alegria de quem quer que seja, são assim os idiotas.

Ali, naquele espaço da praça, desde a muito que uma espécie de associação aparelhada e comandada por uma pessoa tem utilizado o espaço como se fosse seu, portanto, caros artistas, está passando da hora de tomarmos o espaço público da cidade e devolvê-lo a quem de fato ele pertence. Para isso estamos construindo a muitas mãos o Conselho Cultural da Praça Roosevelt, que envolve desde moradores, artistas , teatros e bares daquela localidade, pois não é mais possível que a cultura se torne refém de feudos comandados por idiotas! A Cooperativa chamará uma reunião organizacional que construirá o estatuto cultural da praça coletivamente e assim, a partir das demandas dos cidadãos, atuaremos em defesa da livre expressão e do direito de ir e vir em espaços públicos, que, pra voltar às etimologias, significa “do povo”.