Em ‘Siete Grande Hotel: A Sociedade das Portas Fechadas’, ao mesmo tempo em que
uma ocupação artística revela uma ocupação real, por meio de sete jornadas que se entrelaçam
em lugares inusitados, breves narrativas interrogam o mundo contemporâneo com suas
belezas, guerras, violências, migrações e esperanças.
UM ITINERÁRIO À GUISA DE TESTEMUNHO

Sempre palmilhado pelo horizonte da travessia, uma vez mais o Grupo Redimunho expõe a substância do seu teatro em meio a um novelo de estórias, interrogações e potentes fragmentos de um mundo cujo rosto se perdeu ou não podemos reconhecer.

De perdidos e achados também se compõe a narrativa de labirintos que o novo espetáculo Siete Grande Hotel: a sociedade das portas fechadas apresenta. Chamamos labirintos não porque sejam tortuosos e destinados aos tantos muros sem-saída do nosso tempo, mas porque traçam, ou refundam, o sinuoso caminho dos rios ao alimentar cada membro do Grupo com anônimas trajetórias alheias, as mais confiáveis para interrogar nossa história de espelho partido.

Talvez, mais do que sinuosos, sejam subterrâneos, já que incorporam, também, muitas vidas andarilhas que, assim como a nossa, alcançou um lugar por querência e por ausência. São vidas também marcadas pelo impedimento que brotam do mundo contemporâneo de guerras, mascaradas pela distância, como se não soubéssemos reconhecer o sofrimento do outro traduzido na angústia cotidiana de assistir o horror que naturalizamos feito um ansiolítico que pudesse salvar a mudez e a dúvida de toda a nossa passividade.

Siete Grande Hotel: a sociedade das portas fechadas apreende os caminhos de vidas esquecidas que ousaram e ousam percorrer o mundo contraditório da lembrança pelo esquecimento; mulheres e homens com a mesma sorte dos ventos, reinaugurando e refazendo essa ruína que é a memória, símbolo tão disputado pelos círculos de poder, que não se cansam de desenhar fronteiras com a velha trena de arame farpado.

Siete são as muitas árvores decepadas que não se deram conta que a vida, maior que tudo, segue e seguirá fertilizando a esterilidade de alguma esperança. Siete é um desafio ao sorriso sórdido do que há de treva no século XXI, treva que pensávamos soterrada mas germinou sob o signo do equívoco e do medo. Siete armou-se de estética e ética, contra a farsa. Siete, brotado, vem à tona para jorrar.

O FICCIONAL E O REAL

“É verdade que você foi obrigado
a andar no coração da ferida
para intuir a poesia?
Então aguente. Beije a cicatriz.
Não chore pela água que se desviou do leito.
O destino do rio é continuar a ser rio.”

Issam Ahmad Issa – Era o hotel Cambridge

Numa parceria generosa o MSTC (Movimento dos sem teto do Centro) cedeu parte das dependências que ocupa no antigo hotel Cambridge, no centro de São Paulo, para que o Grupo Redimunho realizasse uma ocupação artística em que são representadas partes do novo espetáculo do Grupo, Siete Grande Hotel: a sociedade das portas fechadas. Vizinhos há já alguns anos, e com atuações importantes no campo político e artístico da cidade, tanto o Movimento como o Grupo de teatro, sem que houvesse qualquer ideia de colaboração programada, ganharam como um presente do tempo essa encruzilhada em que suas travessias dialogam e se fortalecem. Cada uma ao seu modo, ambas as ocupações refletem e organizam pedaços e símbolos de outras tantas ocupações pelo país e pelo mundo com suas políticas de luta e construções artísticas.

O nome Cambridge, em sua origem, é a junção de Cam (afluente do rio Gran Ouse) + bridge (ponte); uma ponte sobre o rio que atravessa a cidade, a cidade de Cambridge, no Reino Unido. Se “o destino do rio é continuar a ser rio” como nos lembra o verso citado pelo palestino Issam, suas águas margeiam o novo Cambridge e o próprio Redimunho com Siete Grande Hotel, pedaços e símbolos de outras tantas ocupações pelo país e pelo mundo com suas políticas de luta e construções artísticas.