“(…), o real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para gente é no meio da travessia. Guimarães Rosa

Quarto espetáculo do Grupo Redimunho de Investigação Teatral, Tareias (no português de Portugal, o mesmo que “surras”, “sovas” e “coças”) é mais um passo do coletivo paulista rumo à construção de uma dramaturgia inspirada na obra de Guimarães Rosa (1908-1967) e que propõe um diálogo permanente com o espaço teatral.

Depois do premiado A Casa (APCA 2006), do elogiado Vesperais nas Janelas (Prêmio QUEM 2008) e de Marulho: O Caminho do Rio (APCA 2011), que inaugurou a nova sede do grupo – o Espaço Redimunho de Teatro próximo ao Largo da Memória (no Anhangabaú), o Redimunho se debruçou na questão da condição feminina no campo e na metrópole, envolvendo cerca de 30 artistas em um trabalho que explora a geografia da cidade, percorrendo algumas ruas do Centro e discutindo os limites entre o público e o privado.

zonadeconforto

Em tempos em que a ocupação do espaço público tornou-se o foco de um debate que mobiliza vários segmentos da sociedade, o Redimunho decidiu voltar seu olhar para uma dramaturgia em movimento que se relacione com o cotidiano das ruas. Foi preciso romper os cadeados da cidade para discutir assuntos como a violência contra a mulher e o direito dos cidadãos de desfrutarem das ruas em segurança.

A partir da cena inicial, a Batalha no Paredão próximo ao Rio do Sono, em uma clara alusão ao final de Grande Sertão: Veredas (1956), a pedra fundamental de nossa dramaturgia, queremos explorar a confusa e complexa composição de prédios e personagens reais da metrópole. O trabalho e a pesquisa do Grupo seguiu o caminho que busca o contraste da mulher ocultada no campo, com a mulher camuflada na vida urbana, que através da encenação, conduz o espectador a percorrer algumas ruas em um grande cortejo pelo centro velho da cidade. Tareias é um espetáculo recortado, dividido em cenas, que individualizam uma situação mais genérica da condição humana e da vida feminina na metrópole.

Uma trupe andante de personagens fabulescos é quem abre os caminhos para lugares normalmente fechados à população e transpõe a metáfora do rompimento dos cadeados da cidade mesclando o espaço urbano entre cenas que revelam situações de violência contra a mulher.

O espetáculo propõe uma inerência que vai além da exploração da geografia da cidade e conduz a estória através de uma realidade difícil e que se traduz em uma denuncia e protesto contra o alto numero de crimes cometidos contra a mulher.

sinopse

Do Sertão que no passado virou mar e hoje se abre em vales, escadas e ladeiras, surgem várias mulheres – todas ‘Maria’ – que, como Diadorim, são sujeitos ocultos de grandes obras. A mulher que ousou desafiar o diabo; a menina escorraçada do ventre da mãe e parida no berço da cidade; a retirante que sai do Crato (no Ceará) e chega a uma grande cidade em busca de um sonho; a portuguesa que assassinou o marido violento, plantador de batatas; a esposa do presidiário que saiu para visita-lo e nunca mais voltou; a faxineira de rua esquecida e invisivel ao mundo, que consegue limpar tudo quanto é sujeira, mas é incapaz de limpar o próprio nome…Tareias é um trabalho de fragmentos ligeiros que tenta se sobrepor a uma lógica dramatúrgica e se arrisca a desvendar a cidade com uma sequência de cenas que beiram o universo depoimental.